Meu primeiro livro virtual

terça-feira, 20 de outubro de 2009

...SORRINDO

Artigo publicado na Folha da Região
Caderno VIDA - Soletrando
dia 22 de outubro de 2009
...Sorrindo


Melhor ser analfabeto.
Quanto mais a gente lê, mais fica sabendo de coisas esquistas.
Marco Antônio saiu do seu escritório de advocacia, passou no piano-bar e tomou o seu lugar de sempre.
-Boa tarde, doutor, como foi o seu dia hoje?
-Oi, boa tarde Carmelo, até que não foi mal. Amigo, manda o de sempre. Quem atira no meio, não erra.
O bar-man se afastou. Marco Antônio pegou sua revista preferida, um semanário de boa tiragem , abriu na última página e começou a ler seu articulista predileto: A ARTE DE MORRER era o tema.
Nele era relatado o caso de um conhecido crítico de música, apaixonado por Villa-Lobos e que ia dar uma palestra sobre o grande maestro. O sistema de som começou a tocar FLORESTA AMAZÕNICA. O crítico ficou extasiado, deu um suspiro e caiu morto. Morreu porque se emocionou com algo que era belo e que amava.
Era uma morte semelhante a uma outra: a de Bergotte, personagem de Marcel Proust, que em uma exposição de arte, fica extasiado com VISTA DE DELF, de Johannes Vermeer e passa para o degrau de cima, na hora,
Estava absorto lendo a matéria, quando foi interrompido pelo garçom, que trazia a bebida.
-Luizinho, será que é possível a gente morrer, assim, de repente, só por olhar algo ou alguém de muita beleza?
-Acho que não, doutor. Posso provar.Uai, fosse isso verdade, tanto o senhor como eu, já teríamos ido "pros quiabos" quando a sua namorada entra ali pela porta,
-Opa! Olha o respeito...
=Doutor, toda afirmação precisa levar junto um argumento de prova. Foi o senhor mesmo quem me ensinou. Não vem, não...
O advogado pediu uma salada completa como entrada, um Le Corti, um chianti clássico da região da Toscana; depois, salmão ao molho de alcaparras, pois resolvera jantar. Chegando em casa, iria após breve descanço, estudar um processo de inventário dos mais intrincados.
-Luizinho, vê a minha despesa, por favor.
Após os acertos e de ter tomado um último drinque, se dirigiu para o carro, mas ainda ouviu do garçon:
=Cuidado doutor, não vá se emocionar.
No caminho para casa, vendo uma farmácia, resolveu ver como estava a sua pressão.
-Olha, vou atender o senhor mas as farmácias não estão mais prestando o serviço à população.Sabe como é, se podem complicar as coisas para o povo, por que não fazê-lo, não é mesmo?
Pressão normal; tranqüilo, foi para casa. Até se esqueceu da matéria lida.
Após o banho, tendo vestido o roupão que lhe agradava, ligou o som para ouvir Harry Jerome e acomodou-se no sofá.
A música era moonlight serenade; Marina, sua namorada, gostava de fazer amor ouvindo a canção.
Ele também gostava muito.
Por volta das onze horas, a santinha, que tinha a chave da casa, entrou e o encontrou deitado, sereno.
Tinha um sorriso nos lábios.

José Hamilton Brito, membro do grupo experimental da academia araçatubense de letras.

4 comentários:

Rita Lavoyer disse...

Excelente o teu texto. Soube mandar a mensagem,não enfeitou as palavras. Mandou o recado de verdade e eu entendi tudo, tudo mesmo. Você melhora a cada lida. Continue assim, tem sucesso o rapaz!

Patrícia Bracale disse...

Põe meu blog ai.
PB-AMABRASIL.blogspot.com

luiz antonio disse...

Este é o meu amigo Brito de ATA. Pessoa que conheci nas minhas viagens pelo estado de São Paulo. Homem talentoso, criativo, culto, amigo dos seus amigos. Sucesso Brito!

O Poeta das Multidões disse...

Parabéns pelo conto. Está ficando bom nisso. Gostei. Abraços. Heitor Gomes.